Quais os fatores que desencadeiam mal-estar e sensação de morte iminente na anestesia peridural ou raquidiana?
Existem diversas reações durante uma anestesia peridural ou raquidiana. Às vezes, os pacientes  queixam-se, por exemplo, de falta de ar. Quando a anestesia alcança a parede do tórax, o paciente deixa de sentir seus próprios movimentos respiratórios. Surge desconforto expresso como sensação de sufocamento. Contorna-se essa sensação solicitando ao paciente para que respire tranquilamente, com os lábios semicerrados, como se estivessem assoprando. Dessa maneira, ele perceberá  que o ar entra e sai dos pulmões sem dificuldade alguma. Coloca-se também a própria mão do paciente sobre seu tórax e ele sentirá que realmente está respirando bem e tudo não passa de uma sensação diferente. Passados alguns minutos, ele se acostuma com a nova situação e desaparece o desconforto.

Há uma outra situação menos simples, que é a queda da pressão arterial em função da vasodilatação que acompanha uma raqui ou uma peridural. A hipotensão arterial provoca um mal-estar traduzido como uma sufocação e sensação de morte iminente. O tratamento da hipotensão reverte rapidamente essa situação.

Certas áreas intra-abdominais onde estão as vísceras, como o útero, os ovários e as alças intestinais, não são anestesiadas com a peridural e nem com a raqui. Os nervos responsáveis por esses órgãos caminham por outro trajeto, diferente do anestesiado. São nervos que vêm das vísceras abdominais, atravessam o diafragma e dirigem-se diretamente ao cérebro. Quando as vísceras são estiradas, surge uma sensação de desconforto intensa, referida também como sensação de morte iminente ou algo parecido.

A manipulação delicada do útero e ovários é, geralmente, bem tolerada. Entretanto, visto que essa sensação nem sempre é evitada com a anestesia peridural ou raquidiana, as cirurgias extensas e demoradas que envolvam essas manobras são melhor realizadas sob anestesia geral. Uma incisão no útero não provoca dor. O que provoca dor é o estiramento dos ligamentos que o sustentam. A incisão para retirada do bebê não causa desconforto, mas a retirada do útero de sua posição normal provocaria um enorme incômodo.  Em uma cesariana, por exemplo, esse desconforto é muito transitório, pois ele ocorre somente no momento em que são examinados os órgãos da região inferior do abdome (pelve). A sensação desagradável não dura mais que alguns minutos e, geralmente, desaparece sem a necessidade de intervenção.

Prof. Dr. José Luiz Gomes do Amaral  é Professor Titular da Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva da Escola Paulista de Medicina e Ex-Presidente da Associação Médica Mundial. Também é autor do capítulo de anestesiologia do livro MEDICINA MITOS E VERDADES (Carla Leonel), do qual este conteúdo faz parte. Proibida a reprodução total ou parcial sem citar a fonte.

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