O REAL PERIGO DE PEDRAS NA VESÍCULA

Onde fica a vesícula e qual a sua função?
A vesícula, chamada tecnicamente de vesícula biliar, é um órgão localizado abaixo do fígado e mede cerca de 7 a 10 cm - ver ilustração. Tem a função de armazenar a bile que é produzida no fígado e através de um ducto (canal) transportá-la até o intestino. A bile (ou bílis) é uma substância que ajuda na digestão dos alimentos gordurosos.

Por que se formam pedras na vesícula?
A bile é formada por sais biliares e outras substâncias, entre as quais, o colesterol e pigmentos. Os cálculos na vesícula aparecem quando há um aumento do colesterol ou diminuição dos sais biliares na bile, tornando a mesma instável e permitindo, assim, a formação de cálculos de colesterol - colelitíase - conhecida popularmente como pedras na vesícula”. A formação das pedras podem levar de meses até anos. Nesta condição a vesícula não consegue mais liberar adequadamente a bile para o intestino. 

Por que o paciente sente fortes dores quando tem pedras na vesícula? A dor é sinal de maior gravidade?
Boa parte dos cálculos na vesícula pode apresentar-se por muito tempo sem sintomas. Outras vezes, o paciente pode ter apenas sintomas leves como enjoo e dificuldade de digestão depois de comer alimentos gordurosos. Entretanto, os cálculos podem obstruir a via de saída da vesícula biliar (veja ilustração), repentinamente, causando forte dor na região abdominal abaixo das costelas, à direita, com ou sem irradiação para ombro direito e, às vezes, até para o ombro esquerdo (quadro de cólica biliar). Também pode ocorrer inflamação da vesícula chamada de colecistite aguda.

De maior gravidade (maior letalidade) é a condição em que os cálculos migram e obstruem vias de saída da bile ou da secreção pancreática, colédoco ou papila duodenal (canal do pâncreas), também provocando pancreatite aguda que exige hospitalização – clique no link azul e leia o artigo sobre pancreatite.

Quais os tamanhos das pedras e quantas delas podem existir na vesícula do paciente?
Isso varia muito. As pedras podem ter desde 1 mm (tamanho de um grão de areia) até 15 cm.  Tem pacientes que podem ter apenas uma pedra enquanto outros podem ter mais de 1000. Cerca de 15% da população desenvolve pedras na vesícula ao longo da vida, e algumas pessoas nem sabem de sua existência pois não chegam apresentar sintomas.

Existe um fator genético ou alguma condição que propicie o surgimento de cálculos na vesícula?
Várias são as causas de cálculos na vesícula. O fator genético também é importante, talvez, devido há um desequilíbrio enzimático. Nos Estados Unidos existe uma tribo (os índios puma) na qual as crianças já tem calculose biliar. Verificou-se que neles existe, geneticamente, um aumento de uma enzima mediadora da síntese do colesterol, e uma diminuição de enzima limitante da síntese dos ácidos biliares.

Há também um grupo de pessoas que têm maior incidência em desenvolver pedras na vesícula, são elas:
• Obesos;
• Mulher na menopausa;
• Grávidas multíparas (várias gestações);
• Mulheres que usam anticoncepcional por muitos anos;
• Pacientes com patologias que causam diarreias constantes;
• Portadores de doença de Crohn, indivíduos que necessitaram retirar o íleo terminal (última parte do intestino delgado) e na fibrose cística do pâncreas devido a diminuição do pool de ácidos biliares;
• Pessoas que se alimentam com dieta rica em gorduras, hidratos de carbono e poucas fibras;
• Existem também cálculos pigmentares, resultantes de infestações biliares pelos parasitas Clonorchis sinnesisis e Ascaris lumbricoides (a lombriga), caso atinjam a vesícula - clique no link azul e leia o artigo sobre vermes no intestino.

Como aliviar a cólica causada pelas pedras na vesícula? Qual o tratamento?
Na ocorrência de cólica biliar, há a necessidade de se administrar analgésico por via intravenosa (pela veia). No caso da colecistite, administra-se antibiótico até "esfriar" o processo ou decide-se por cirurgia de urgência. A endoscopia da via biliar pode ajudar na remoção de cálculos, mas o tratamento é sempre cirúrgico e, preferencialmente, por via laparoscópica.

Qualquer pessoa pode se submeter a cirurgia para retirada da vesícula?
Nos casos que não é possível realizar a cirurgia, por exemplo, pela idade ou doenças graves associadas, ou nos casos em que a doença não apresenta sintomas, pode-se tentar o tratamento com medicamentos. Esta condição só é possível para dissolver cálculos de colesterol puro. Quando existem pigmentos ou cálcio, o tratamento via drogas não é suficiente para dissolver o cálculo. O tratamento clínico é bem demorado (6 a 18 meses),  além de ser muito mais dispendioso do que uma cirurgia laparoscópica.

Existe outras formas de tratamento?
Outra modalidade terapêutica da vesícula é a litotripsia extracorpórea por ondas de choque de origem ultrassonográfica, por raio laser, eletro-hidráulica, ou por ondas piezoelétricas. Entretanto, este método já não é muito aceito, pois após a litotripsia, o cálculo pode migrar para o coledoco (canal que liga a vesícula ao duodeno), levando o paciente à cirurgia de urgência. Outro problema deste método é que permite a recidivas importantes do quadro (retorno dos cálculos).

Quais as consequências para o paciente? Pode-se viver sem a vesícula?
A grande maioria dos indivíduos operados de vesícula (colecistectomizados — que retiraram a vesícula) nada sentem e podem, inclusive, levar uma vida absolutamente normal e outros órgãos como o fígado e estômago passam a exercer a função da vesícula. Complicações após o pós-operatório seria a  diarreia, que tende, gradativamente, a desaparecer.

Entretanto, aqueles indivíduos com síndrome de cólon irritável e que apresentam diarreia crônica, têm uma piora no quadro da diarreia, após a retirada da vesícula. Já os pacientes com crises de coleciste aguda e inflamação da vesícula, que não se submetem a cirurgia, correrão o risco de ter, após alguns anos, câncer na vesícula.

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Este conteúdo é exclusivo do livro Medicina Mitos e Verdades (CarlaLeonel) – Editora CIP. Proibida a reprodução total ou parcial sem citar a fonte com o link ativo. Médico responsável pelo capítulo de gastroenterologia Prof. Dr. Luiz Chether.

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