Quais os primeiros sintomas da esclerose múltipla?
Aproximadamente 20% das pessoas são acometidas no início da doença por problemas visuais. O nervo óptico é um segmento do sistema nervoso central que é muito afetado, pois é uma estrutura com uma alta densidade de mielina, embora não seja longo. A redução da visão é acompanhada por dores no globo ocular. Este sintoma de dor identifica a esclerose no conjunto das doenças que provocam a perda rápida da visão, e a dor é explicada pela razão de que o nervo óptico está acolhendo uma inflamação.  Outros sintomas são rotulados como:
Sintomas motores (piramidais, cerebelares) - falta de força no braço ou perna;
Sintomas sensitivos - perda de sensibilidade no hemicorpo direito ou esquerdo: dificuldade da marcha por perda da sensibilidade profunda (aquele que permite que possamos andar com os olhos fechados).

Todos esses sintomas ocorrem de uma só vez em todos os pacientes?
O paciente, subitamente, perde a função motora, sensitiva ou autônoma relacionada àquela parte do cérebro lesada. Se a lesão evoluir para esclerose, a função estará definitivamente perdida. Caso a inflamação regrida, a função retornará ao normal. No início da doença, geralmente, há sintomas únicos, porém, na somatória das recidivas (retorno dos sintomas), eles tornam-se múltiplos caracterizando então, definitivamente, a doença esclerose múltipla. Assim, a doença pode ter o seu diagnóstico cogitado quando esses sintomas ocorrem no adulto jovem evidenciando dois ou mais locais de lesão e, principalmente, quando ocorrem em períodos diferentes e espaçados de pelo menos de um a dois meses.

A doença se apresenta clinicamente na condição de surtos remissivos, ou seja, os sintomas aparecem e regridem, muitas vezes sem tratamento. Essa é a forma surto/remissão da doença que corresponde ao início mais frequente — 85% dos pacientes.

Os demais pacientes apresentam a doença desde o início sob a forma progressiva, forma esta que incide mais frequentemente no adulto (45 a 50 anos de idade) e seu curso é marcado por envolvimento de um ou dois sistemas (tratos mielinizados) afetados. Essa forma apresenta uma evolução mais rápida para a incapacidade motora severa, seja fraqueza em membros inferiores, seja tremores nos membros inferiores e/ou superiores.

Após alguns anos ou décadas da evolução surto/remissão, os pacientes que não apresentam sequelas graves passam a desenvolver a forma progressiva dos déficits, ou seja, passam a apresentar a doença na forma progressiva secundária.

Qual o tempo para a esclerose múltipla começas a causar sequelas?
Os pacientes nos primeiros anos de doença apresentam sintomas e sinais neurológicos transitórios, que ocorrem subitamente e, em questão de dias, desaparecem. Com a evolução da doença e, na maioria dos pacientes, após uma ou duas décadas, as recidivas dos surtos ou as pioras transitórias de função anteriormente descritas vão deixando sequelas. Essas sequelas são frequentemente de ordem motora, geralmente com fraqueza nos membros inferiores. No passado, antes do advento das terapias imunomoduladoras, até 95% dos pacientes apresentavam um andar com alguma dificuldade, ou mesmo necessitavam de apoio.

A sequela sensitiva mais grave é aquela relacionada à visão, que também entra no conjunto de sintomas da doença. Existe uma das formas da doença em que a redução da visão e da capacidade motora dos membros inferiores é maior e, portanto, mais grave; esta forma felizmente é rara, não atingindo mais que 7% do total dos pacientes. Outro sintoma muito desconfortável para o paciente é a perda de controle da micção. No início da doença, ela evolui em surtos com remissão dos sintomas, porém, no decorrer dos anos, o problema pode tornar-se definitivo, exigindo uso de sondas uretrais intermitente ou definitivo.

A esclerose múltipla afeta também a função intelectual?
A função intelectual nestes doentes é muito preservada, e o que pode ocorrer em uma pequena porcentagem deles (não mais de 15%, e após duas a três décadas) é uma perda moderada de memória, que não chega a afetar o trabalho diário do paciente e é facilmente identificada em exames neuropsicológicos.

É verdade que a esclerose múltipla atinge principalmente mulheres jovens?
Sim. Ela tem maior incidência em adultos jovens na faixa etária dos 25 a 35 anos de idade, sendo a mulher mais afetada. Não tem caráter familiar, os indivíduos de raça branca são mais acometidos, sendo mais rara em negros e orientais.

Quais os exames necessários para o diagnóstico da esclerose múltipla?
O diagnóstico de esclerose múltipla é clínico quando preenche todos os sintomas e sinais descritos anteriormente. Há, entretanto, situações em que a suspeita dessa doença somente pode ser comprovada por recurso laboratorial. Isso, geralmente, ocorre nos sintomas iniciais, ou naqueles pacientes com a doença progressiva desde o início.

Os recursos laboratoriais atualmente usados são: ressonância magnética do encéfalo e medula espinhal, e estudo do líquido cefalorraquidiano. Esses exames têm a finalidade de confirmar múltiplas lesões no sistema nervoso central, com características inflamatórias, nas regiões de maior densidade mielínica. O processo inflamatório se confirma pela presença de células inflamatórias no líquido cefalorraquidiano. Esses exames têm também a finalidade de afastar suspeitas de outras doenças que simulam a esclerose múltipla, como vasculites do sistema nervoso central, tumores, malformação vascular e infecções como a neurosífilis, a neurocisticercose etc.

Existe cura para esclerose múltipla?
Embora não exista cura para essa moléstia, hoje em dia existem muitos meios para controlá-la e tornar a vida do paciente a mais normal possível. Em primeiro lugar, é fundamental que o paciente tenha uma alimentação saudável, com alimentos com pouca gordura animal. Além disso, atividade física regular deve ser incrementada. Durante os surtos, o uso de corticosteróides em altas doses pode abreviar sua duração, além de eventualmente diminuir a intensidade das sequelas.

Porém, o tratamento da esclerose múltipla é feito no sentido de reduzir a inflamação quando ela ocorre e quando se está determinando o aparecimento de um novo surto. Esse tratamento é feito de modo esporádico, ou seja, quando ocorre o surto clínico e se utiliza um corticosteroide. Este medicamento pode ser aplicado por meio endovenoso na forma de pulso (altas doses por poucos dias), ou pela via oral, em doses mais reduzidas, porém por duas a três semanas.

Nos últimos 20 anos, foram desenvolvidas terapias com bases imunológicas, chamadas imunomoduladoras ou imunossupressoras, que têm modificado a história natural da esclerose múltiplas. A base dessas terapias é a profilaxia (prevenção), impedindo o reaparecimento da inflamação. Administram-se medicamentos que têm a propriedade de reduzir a frequência do surto clínico em pacientes que apresentam mais de dois surtos por ano, porém sem abolir completamente os medicamentos que temos no comércio atualmente e que reduzem de 30% a 50% os surtos.

Quais são esses medicamentos? Tem efeito colateral?
Os medicamentos profiláticos são de três categorias: os interferons, o copolímero e os imunossupressores. Essas medicações são de uso contínuo e, provavelmente, definitivo para o controle da doença, de administração subcutânea, intramuscular, intravenosa, ou até por via oral.

As medicações de primeira linha são os interferons e os copolímeros. Os efeitos colaterais mais importantes desses medicamentos são febre e mal-estar, que podem ser controlados com antitérmicos e vão desaparecendo no decorrer do primeiro ou segundo mês de utilização. Atualmente, no mercado se encontram o Betaferon® (interferon ß1b), o Rebif® (interferon ß1a), o Avonex® (interferon ß 1a) e o Copaxone® (copolímero 1).

As medicações de segunda linha, pela maior agressividade e riscos de infecção, são os imunossupressores. Dentre eles, destacam-se os antigos: azatioprina, de uso endovenoso, mitoxantrona e ciclofosfamida. Os recentes: natalizumab (de uso intravenoso) e fingolimod (de uso oral).

Todos esses medicamentos apresentam riscos consideráveis e só devem ser administrados por neurologistas especialistas no tratamento da esclerose múltipla.

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Conteúdo do livro MEDICINA — MITOS & VERDADES (Carla Leonel )  Capítulo de neurologia. Médico responsável Prof. Dr. Milberto Scaff (Prof. Titular de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo/FMUSP). Proibida reprodução total ou parcial sem citar a fonte.


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