O melhor tratamento contra a perda auditiva é a prevenção. Entretanto, às vezes, isso não é possível. Uma vez instalada a surdez, total ou parcial, a melhor providência é procurar o quanto antes um especialista.  A primeira providência do especialista será identificar o local acometido no aparelho auditivo.  As alterações do ouvido externo e do ouvido médio são, quase sempre, passíveis de tratamento clínico ou cirúrgico, com recuperação da audição na maioria dos casos. Por outro lado, as lesões do ouvido interno que causam a perda auditiva sensorial são mais resistentes ao tratamento e, quase sempre, levam à perda permanente. E é justamente no ouvido interno que se encontra o aparelho vestibular conhecido como labirinto. Porém, quando diagnosticadas precocemente, ainda podem apresentar uma chance de reversão. Quanto mais tempo se passar, menores as chances de melhora.

Em casos de perdas sensoriais genéticas ou adquiridas ainda são limitadas as possibilidades de tratamento com vistas à recuperação da audição. Entretanto, existe a possibilidade de estabilização do nível auditivo no momento do diagnóstico, com o uso de vasodilatadores e a prevenção de situações de agressão ao ouvido interno — ambientes ruidosos, medicamentos ototóxicos e doenças sistêmicas com repercussão no labirinto.

Para as crianças que nascem com perdas auditivas sensoriais profundas, a melhor conduta ainda é a adaptação de próteses de amplificação sonora, acompanhada por fonoaudioterapia. Em casos bem selecionados, e quando não existe aproveitamento dos aparelhos de amplificação sonoros convencionais, deve-se utilizar o recurso do implante coclear, também conhecido como orelha biônica, que promove a audição nos casos de perda profunda ou ausência da audição.

O implante coclear não significa recuperação total da audição, mas, sim, o uso de um estimulador/modulador auditivo diferente do aparelho convencional. De um modo simplificado, o deficiente auditivo recebe um implante de eletrodos intracocleares, isto é, dentro do labirinto e próximo ao nervo auditivo, conectado a um gerador de estímulos localizado na parte posterior da orelha. Esse gerador de estímulos, por sua vez, será ligado a um processador de sinais sonoros que fica colocado atrás da orelha, como um aparelho convencional. Quando existe a emissão de um som próximo a ela, este processador de sinais sonoros o identifica e analisa as principais frequências que o compõem e envia, imediatamente, um sinal para o gerador de estímulos com os códigos dessas frequências. Finalmente, o gerador de estímulos baseado nessas informações gera uma corrente elétrica que é liberada pelos eletrodos intracocleares para o nervo auditivo. As fibras do nervo auditivo levam, então, esse sinal elétrico para o cérebro, onde será interpretado.

Como se vê, não há regeneração das estruturas normais do aparelho auditivo, mas, sim, a utilização de um recurso eletrônico de estimulação da audição. Vale dizer que as pessoas implantadas necessitam de terapia fonoaudiológica específica, mas os resultados da reabilitação da deficiência auditiva profunda com implantes cocleares são muito relevantes. Com os avanços tecnológicos, os resultados com o implante coclear melhoraram muito e, hoje em dia, são a grande arma para reabilitar a perda auditiva severa e profunda.

Na maioria das vezes, a lesão auditiva acontece isoladamente. Sendo a única deficiência da criança, os resultados do tratamento são satisfatórios com possibilidade de socialização e profissionalização desses pacientes de forma conveniente. Hoje em dia, com a detecção precoce da deficiência auditiva e o tratamento adequado, o problema auditivo não é fator de exclusão social, pois há pacientes arquitetos, experts em computação, desenhistas, fotógrafos, artistas plásticos, operários em linhas de produção, entre outras possibilidades. 

Nas crianças, a maior dificuldade é que a boa evolução desses casos é obtida apenas a médio e longo prazo, à custa de muito trabalho por parte do paciente, dos pais e dos profissionais envolvidos. Isso faz com que, muitas vezes, haja o abandono do tratamento, especialmente quando predomina o imediatismo e, principalmente, o preconceito. Infelizmente, ainda é muito grande o preconceito que portadores de deficiência auditiva (sejam eles crianças ou adultos) enfrentam, e, muitas vezes, dentro da própria família. Essa insensibilidade se confronta com a grande sensibilidade que os deficientes auditivos aprendem a desenvolver, até como forma de compensar a perda de um sentido importante como a audição.

O deficiente auditivo costuma ser um arguto observador do seu meio. Se as imagens são fundamentais para os normo-ouvintes, elas passam a ter um valor ainda maior para o deficiente auditivo, guardando características emocionais e cognitivas. Assim, os gestos e comportamentos discriminatórios são facilmente identificados e sentidos pelo portador da deficiência, proporcionando um impacto muito grande no seu desenvolvimento emocional e neurofisiológico.

Portanto, o que pode modificar de forma fundamental a vida dessas pessoas, especialmente das crianças, é encarar com seriedade o problema além de desenvolver o trabalho de estimulação auditiva e de linguagem com muito amor e disciplina. De nenhuma maneira isso significa que a ciência está acomodada com relação ao problema. Inúmeras pesquisas estão em andamento visando a descoberta de meios que viabilizem a recuperação do tecido nervoso, auditivo ou não, e não é improvável que tenhamos novidades nos próximos 10 ou 15 anos.

Conteúdo do livro MEDICINA — MITOS & VERDADES (Carla Leonel ). Perguntas e Respostas. Capítulo de Otorrinolaringologia. Médico responsável Prof. Dr. Oswaldo L. Mendonça Cruz (MD Affiliate Professor. Division of Otology&Neurotology. Departamento de Otorrinolaringologia Universidade Federal de Sao Paulo – Brasil). Proibida reprodução total ou parcial sem citar a fonte.

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